São Gelásio I ocupa um lugar singular na história da Igreja por ter exercido o papado em um dos momentos mais delicados da transição entre a Antiguidade tardia e a Idade Média. Seu pontificado, breve em duração, foi decisivo em conteúdo: nele se consolidam princípios teológicos, eclesiológicos e políticos que moldariam séculos de cristandade ocidental. Gelásio não é lembrado por grandes gestos espetaculares ou por um martírio sangrento, mas por algo talvez ainda mais determinante: a clareza com que definiu a missão própria da Igreja em um mundo politicamente fragmentado e religiosamente instável.
Pouco se sabe com precisão sobre sua juventude, mas as fontes indicam que Gelásio era de origem africana ou, ao menos, profundamente formado no ambiente cultural e teológico latino. Antes de ser eleito Papa, já se destacava como colaborador próximo da Sé Romana, especialmente no campo doutrinal. Foi eleito Bispo de Roma em 492, sucedendo o Papa Félix III, em um contexto marcado pela ausência de um imperador romano no Ocidente e pela crescente ingerência do poder imperial oriental nas questões eclesiásticas.
O mundo em que Gelásio assume o papado é um mundo em ruínas. O Império Romano do Ocidente havia colapsado oficialmente em 476, e a Itália encontrava-se sob domínio de reis bárbaros. Ao mesmo tempo, o imperador do Oriente, sediado em Constantinopla, buscava exercer influência sobre a Igreja, inclusive interferindo em questões doutrinais. É nesse cenário que Gelásio compreende, com notável lucidez, que a sobrevivência da Igreja não dependeria da restauração de um império cristão, mas da afirmação clara de sua autoridade espiritual própria.
O ponto mais conhecido e influente de seu magistério é a formulação da chamada doutrina das “duas potestades”, expressa de modo clássico na carta enviada ao imperador Anastácio I. Nela, Gelásio afirma que o mundo é governado por duas autoridades instituídas por Deus: a autoridade sagrada dos pontífices e o poder régio. Ambas possuem origem divina, mas não exercem a mesma função. Aos governantes cabe a ordem temporal; à Igreja, a condução das almas rumo à salvação. No que diz respeito às realidades eternas, a autoridade espiritual é superior, pois até os reis necessitam dos sacramentos e da orientação da Igreja.
Essa distinção, longe de propor uma teocracia ou um domínio político do papado, estabelece um princípio de equilíbrio que seria fundamental para a civilização cristã medieval: Igreja e Estado não se confundem, mas também não se anulam. Cada um possui um campo próprio de atuação, e a violação desses limites gera desordem tanto espiritual quanto social. Com isso, Gelásio lança as bases da teologia política cristã do Ocidente, influenciando profundamente a reflexão posterior sobre poder, lei e autoridade.
No campo doutrinal, São Gelásio I destacou-se como firme defensor da fé definida pelo Concílio de Calcedônia, especialmente contra o monofisismo, que negava a plena humanidade de Cristo. Em um tempo em que imperadores buscavam soluções teológicas de compromisso para manter a unidade política do império, Gelásio sustentou que a verdade da fé não pode ser negociada por conveniência. Para ele, a integridade da doutrina cristológica era condição indispensável para a comunhão da Igreja.
Essa postura revela um traço essencial de seu papado: a convicção de que a Igreja não recebe sua autoridade do poder civil, mas diretamente de Cristo, por meio da sucessão apostólica. Gelásio reforçou com vigor a primazia da Sé de Roma, não como um privilégio honorífico, mas como uma responsabilidade doutrinal. Para ele, Roma é guardiã da fé apostólica recebida de São Pedro, e sua autoridade existe para preservar a unidade da Igreja e a fidelidade ao Evangelho.
Além de suas intervenções doutrinais e políticas, Gelásio também se ocupou da vida interna da Igreja. Combateu abusos disciplinares, reforçou a dignidade dos sacramentos e procurou garantir uma prática litúrgica estável em meio ao caos social da época. A tradição associa seu nome ao fortalecimento do Cânon Romano da Missa, sinal de sua preocupação com a continuidade litúrgica como expressão da fé da Igreja.
São Gelásio I não foi mártir. Sua santidade não deriva do derramamento de sangue, mas da fidelidade perseverante no governo pastoral e na defesa da verdade. Por isso, é venerado como santo confessor. Sua canonização não se deu por um processo formal, inexistente naquele período histórico, mas pelo reconhecimento antigo e contínuo da Igreja, que passou a venerá-lo liturgicamente pela memória de sua vida e de seu magistério.
Sua influência atravessou os séculos. Autores como São Gregório Magno herdaram sua compreensão elevada do papado como serviço espiritual à Igreja universal. Na Idade Média, seus textos foram amplamente citados nos debates entre papas e imperadores. Mesmo pensadores como São Tomás de Aquino, séculos depois, dialogam indiretamente com sua herança ao refletir sobre a distinção entre ordem natural e sobrenatural, poder temporal e autoridade espiritual.
Ao final, São Gelásio I se impõe como uma figura de transição e, ao mesmo tempo, de fundação. Ele pertence a um mundo que desaparecia, mas ajudou a estruturar o mundo que surgia. Sua grandeza não está em milagres populares ou em narrativas lendárias, mas na solidez intelectual e espiritual com que afirmou a identidade da Igreja em um tempo de crise profunda. Em silêncio, com cartas e decisões firmes, ele contribuiu para que a Igreja permanecesse livre, fiel e consciente de sua missão no coração da história.
Referências bibliográficas
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